“Quando as pessoas se largam, quando as vidas se mudam ou quando os conjuntos viram solos, há gotas de vida triste caindo invisivelmente pelo ar. Pois ninguém um dia dá a mão pensando em soltar. Ninguém adentra o outro já procurando a saída. Quem nesse mundo pode premeditar a despedida ou o desencontro? Quem tolera andar sozinho? É deprimente, tão deprimente que a vida chore fingindo sorrir e fique no tempo fingindo seguir em frente. Mas, nascidos intensamente, somos marcas, marcados. Somos a ferida e o ferido. Quando duas vidas se desencontram, somente vivendo mais mil para esquecer. E não há garantias de sucesso…
“Aquela era uma saudade feita de um punhado de sorrisos viçosos floridos no jardim da memória. Era pássaro que cantava macio na árvore mais frondosa da minha gratidão. Era mar que estendia ondas suaves de ternura por toda a orla dos meus olhos. Aquela era dessas saudades que toda vez que dizem acendem um mundaréu de estrelas no céu do coração.
“Ninguém ajudou, me virei sozinho. Isso me endureceu um pouco mais.
“Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
“Na cama, à noite, enquanto penso em meus muitos pecados e em meus defeitos exagerados, fico tão confusa pela quantidade de coisas que tenho que analisar que não sei se rio ou se choro, dependendo do meu humor. Depois durmo com a sensação estranha de que quero ser diferente do que sou, ou de que sou diferente do que quero ser, ou talvez de me comportar diferente do que sou ou do que quero ser.
Minha nossa, agora estou confundindo você também.
“Em alguns dias dói. A tristeza puxa os cabelos, arranha a cara, machuca dentro. E a gente não tem mais nada pra fazer a não ser dizer que tá tudo bem. Porque vai passar, passa. Só que antes de passar maltrata. E, entenda, a pior dor é aquela que ninguém vê. Só ela, a tristeza.
“Diferente dos livros, a gente não pode voltar na melhor parte.
“Então você pula, engole muita água, sente dor no corpo, cai em si, começa a mexer os braços e pensa: ou eu nado ou eu morro. E você decide viver. Mesmo que pra isso tenha que morrer nadando…